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29/01/2010

Estado de São Paulo: matéria sobre Metallica

O jornal Estado de São Paulo publicou a seguinte matéria em seu site:

Metallica volta ao Brasil em fase 'relaxada'

Grupo anda com a família, faz ioga e se espelha em ídolos antigos para seguir na estrada por muitos anos

A chuva que castiga São Paulo por todo mês de janeiro vai ter a companhia de um vulcão em erupção neste fim de semana. Assim que os primeiros acordes de Creeping Death ecoarem no Estádio do Morumbi, a maior banda de heavy metal do mundo despertará para o primeiro dos dois shows marcados para São Paulo da World Magnetic Tour. Mais de 100 milhões de discos vendidos depois, os 11 anos que separam a última passagem do Metallica pelo Brasil escancaram uma mudança de comportamento cristalino, tanto em entrevistas, como na forma de cada integrante encarar a vida dentro e fora dos palcos.

Antes do concerto que a banda realizou em Buenos Aires na sexta-feira passada, o guitarrista Kirk Hammett recebeu o Estado nos camarins do Estádio Monumental Nuñez e falou sobre o atual humor das quatro partes que formam o Metallica - além de Kirk, James Hetfield (vocal e guitarra), Lars Ulrich (bateria) e Robert Trujillo (baixo): "Todos passamos pelas mesmas experiências, temos famílias, somos pais. Hoje, nosso maior desafio é ser ao mesmo tempo bons pais e rockstars que têm de viajar pelo mundo." Kirk tem dois meninos e durante toda conversa, sempre que pôde, colocou o assunto criança na pauta. "Turnês são os únicos momentos que posso testar novas guitarras e efeitos. Em casa, meus filhos estão sempre pedindo para eu abaixar o volume."

O quarteto montou seu QG latino-americano em Buenos Aires, cidade da mulher de James Hetfield, Francesca Tomasi. Já Lars veio com a mulher e o filho mais novo. Mais do que a presença da família, a atitude dos músicos pouco lembra os clichês de uma banda de rock pesado. Nos camarins, onde antes era possível chafurdar em "toneladas de bebidas, comida, sprays, maquiagem e loções hidratantes para as groupies que tomavam banho depois dos shows", segundo Kirk, hoje é possível esbarrar em fraldas, brinquedos, desenhos da Disney, vitaminas e um professor de ioga. "Antes de entrar no palco ouço jazz e bossa nova."

Na entrevista coletiva que antecedeu a apresentação na capital argentina, o baixista Rob Trujillo contou como cada integrante do Metallica gasta seu tempo fora dos palcos: "Treinamos muito. O Lars corre todos os dias. Kirk faz Ioga e surfa e eu faço exercícios com o James e sua esposa."

A rotina de exercícios é necessária. Nos últimos 10 anos, segundo a Billboard, a banda fez 406 aparições ao vivo. As apresentações vieram entrelaçadas com problemas de ordem jurídica e emocional. Em 2000, Lars Ulrich entrou em guerra contra a pirataria digital, na época representada pelo Napster. Hoje, quando fala de internet, ainda soa rancoroso. "Não tenho ocupado a minha mente com isso, mas temos que educar a nova geração de 8, 9 anos sobre o mal da pirataria. Se eles não souberem a consequência dos seus atos nunca vão ser responsáveis." Quando questionado sobre as críticas que recebe pela rede, respondeu: "A internet possibilita a pessoas anônimas a falarem um monte de merda."

Golpe mais agudo veio com a quase dissolução da banda em 2003. A saída do baixista Jason Newsted, uma crise de criatividade e os problemas de alcoolismo de James potencializaram um cenário devastador. Um psicólogo foi convocado e um documentário filmado, Some Kind of Monster (2004), levou as mazelas de uma banda em frangalhos às telas de todo mundo. "As coisas estavam muito ruim com o Jason. Não sabíamos como lidar com aquilo e quase acabamos. Mas não gostei nada de que nossas roupas sujas foram lavadas em público", lembrou Kirk. "Eu sou um cara quieto, gosto de ficar sozinho, sou uma espécie de outsider. Um filme daquele vai contra as minhas crenças." O resultado da terapia, ao menos, foram positivos. Kirk diz que o grupo nunca esteve tão afiado, o segredo: Robert Trujillo. "Com o Rob na América Latina é outra experiência. Ele tem uma mãe mexicana e as pessoas se identificam com ele. Rob é uma fonte de inspiração e muito melhor do que Jason."

As boas vibrações são parte do lançamento de Death Magnetic, disco lançado em 2008 - após o fracassado St. Anger (2003) -, que levou novamente a banda aos topos da parada. "É um álbum muito energético e uma grande Polaroid de nós como grupo agora", afirmou Kirk. As comemorações continuarão nos quatro shows em junho na Europa chamados de The Big Four, onde Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax estarão tocando pela primeira vez juntos. James explicou como os papas do thrash metal se uniram: "Depois de gravar um CD como Death Magnetic e entrar no Rock’n’Roll Hall of Fame muitas histórias antigas vieram à cabeça. A Bay Area (local na Costa Oeste dos Estados Unidos onde surgiram as bandas) foi muito importante para nós e resolvemos celebrar os sobreviventes. Estamos vivos e muito fortes." Aqui no Brasil, é o Sepultura quem ciceroneia o Metallica depois de prometer nunca mais abrir para os americanos após o concerto de 1999. O Sepultura alega que foi boicotado naquela data, pois teve seu volume abaixado.

Quanto ao futuro, James se espelha em seus ídolos: "Olhamos as outras bandas, como o Rolling Stones, o Lemmy do Motörhead, e eles continuam tocando no mesmo nível e intensidade. Angus Young é um atleta. Enquanto eles estiverem aí, temos que segui-los."

Encontro de Lou Reed com gigante do rock pesado, em outubro, foi fenomenal

"Disseram para a gente que iríamos fazer um show com convidados. Algumas das bandas sugeridas não faziam muito sentido. Mas, depois de algumas jams com elas, fez todo o sentido. Nós temos muito em comum, não apenas musicalmente, mas em nossas mentes e corações."

O comentário do vocalista do Metallica, James Hetfield, referia-se ao convidado que receberiam a seguir, no Madison Square Garden, no dia 30 de outubro, em Nova York, no show comemorativo dos 25 anos do Hall da Fama do Rock’n’Roll. O cara que veio de preto do fundo do palco era ninguém menos que Lou Reed, ex-Velvet Underground, remanescente da blank generation, ex-pupilo de Andy Warhol, Cavaleiro Negro do underground nova-iorquino, um dos avós do punk rock.

Foi o show mais estranho e ao mesmo tempo eletrizante que os fãs das duas partes veriam. Lou e Hetfield encabeçaram o palco, cantando Sweet Jane e White Light/White Heat, duas pérolas do Velvet Underground. A plateia berrava um "Looouuuu" em uníssono, e aquilo parecia uma vaia - coisa que Lou Reed teria adorado nos anos 70, mas ele acabou se tornando respeitável, como (quase) todo o rock de sua época.

E, de fato, Hetfield tinha razão: havia muito em comum entre o Metallica e o convidado. Lou Reed, que integra o Hall da Fama do Rock desde 1996 e foi condecorado com a medalha de Cavaleiro das Artes e das Letras pela França, gosta da armadura metálica do barulho. Seu lado hardcore aflorou em 1973, quando ele lançou o disco ao vivo Rock and Roll Animal, com versões pesadas de Sweet Jane, Carolina Says e outros clássicos.

O guitarrista Kirk Hammett teve um acesso de fanzoca depois da coisa toda. "Um dos meus momentos favoritos foi quando Lou Reed foi atrás do cara do monitor e disse: ‘Hey, eu preciso de mais Kirk Hammett no meu monitor! Lou Reed queria me ouvir mais de perto! Irado!", disse o guitarrista à revista Rolling Stone.

O próprio Reed, em uma de suas visitas ao Brasil, em 1996, questionou os rótulos usados para definir música. "O que é underground? Miles Davis e Ray Charles são alternativos ou são mainstream?", perguntou a repórteres. "Outsider? Na verdade, nunca experimentei ser um insider de coisa alguma, então eu não saberia dizer se já estive do lado de fora", afirmou.

Outra grande surpresa do show: Ray Davies, dos Kinks, cantando You Really Got Me, de 1964 (gravada pelo Van Halen em 1978), e All Day and All of the Night. O vocalista James Hetfield parecia realmente maravilhado com seus convidados, especialmente com Ray Davies. "Ele foi nossa escola nos primórdios dos riffs do rock", afirmou Hetfield. Quando Davies deixou o palco, após cantar All Day and All of the Night, ele exclamou: "Uau, que doideira!"

E o dueto com Ozzy em Iron Man e Paranoid foi de arrepiar. Ozzy tomou os vocais e as guitarras do Metallica não pareciam alheias, era como se Zakk Wylde estivesse ali do ladinho. Deste convidado, Hetfield não falou de nenhum estranhamento - foi o Metallica quem conduziu Ozzy ao clube do Hall da Fama do Rock, anos atrás.

O Metallica deixou todo mundo com os ouvidos zunindo. Está soando ainda mais pesado do que da última vez que esteve aqui, nos anos 1990. Ofereceu um belo coquetel de rock pesado, com músicas como Enter Sandman (que foi precedida de imagens no telão do jogador dos Yankess Mariano Rivera, que tem a música como seu tema da vitória), Stone Cold Crazy, For Whom the Bell Tolls. Na cover de Bob Seger, Turn the Page, que o Metallica gravou em 1998, a plateia cantou a plenos pulmões (a balada de Bob Seger, compositor popular de Detroit, é um hino melódico típico da cultura americana, e já foi gravada também pelo Thin Lizzy).

O show do Madison Square Garden foi gravado pela HBO americana e transmitido no Brasil pelo canal TNT. Os encontros inusitados são uma marca das celebrações do Hall da Fama do Rock, mas desta vez parece que se superaram. Houve momentos memoráveis, como Jeff Beck ao lado de Billy Gibbons, do ZZ Top, esmerilhando Foxy Lady, de Hendrix.

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